VIDA DE AGRICULTOR COM MARIA BAGESTÃO "'

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VIDA DE AGRICULTOR COM MARIA BAGESTÃO

Quem vê dona Maria Bagestão tranquila, na varanda de sua casa na Fazenda Portela, na zona rural de Jataí, não imagina que na humildade de seu jeito simples está uma das desbravadoras do cerrado, que enfrentou diversos obstáculos pela busca de novas terras e pela vontade de desenvolver a agricultura da região.

 

Maria Bagestão nasceu na cidade de Arroio do Meio, em Rio Grande do Sul. Filha mais nova dos oito filhos de João e Catarina Schmitz já mexia com a agricultura desde cedo, nas colônias em que a família produzia.

 

Agricultora desde sempre, aprendeu a plantar ainda com matracas e se lembra de uma história curiosa: a primeira vez que cultivou soja, o grão era algo tão novo que era tido como uma “espécie de feijão”, sendo assim, como a agricultora já tinha a prática de bater as vagens de feijão na colheita, fez o mesmo com as vagens de soja, mal sabendo que se tornaria uma das maiores produtoras daquele grão.

 

Ainda em sua cidade natal, Maria Bagestão conheceu Arlindo, que trabalhava com a produção de tijolos em uma olaria. Surgia naquele casal mais do que um romance, mas uma parceria de ideais empreendedores. Em 1956, ambos com 21 anos, se casaram e passaram a viver da agricultura familiar, mas era preciso achar novas terras, fora da colônia da família de Maria.

 

Em busca de novas terras, mudaram-se para Criciumal – RS. Lá eles moraram por 4 anos, mas as condições ainda eram difíceis e a expansão territorial dificultava o crescimento da propriedade dos Bagestão. A família partiu em busca de novas terras em Tenente Portela, ainda no Rio Grande do Sul, até que resolveram arriscar algo novo e desafiador: desbravar terras no sudoeste de Goiás, em Jataí, no ano de 1985.

 

Com 12 filhos – João Décio, Leoni, Leonel, Laine, Luiz, Mauro, Louvani, Clari, Ceomar, Iara, Elemar e Márcio, a família veio para Goiás aos poucos, para desbravar novas terras para agricultura. O patriarca da família, Arlindo Bagestão veio primeiro e comprou partes de terra bem próximas à uma curva da estrada, e por este motivo ficou conhecido pelos fazendeiros vizinhos como “o homem da curva”, era o início da Fazenda Portela.

 

Para preparar o terreno, roçaram todo o espaço da terra onde antes era mato e plantaram arroz. Depois de um tempo, começaram o plantio de soja. No começo, eram 53 hectares de terra – que se transformariam mais tarde em mais de 200 hectares que a família possui hoje.

 

No espaço que antes era apenas cerrado, a primeira estrutura onde a família morou era um barracão com telhas de zinco – que ainda existia como recordação até um tempo atrás. Uma realidade totalmente diferente da que os Bagestão viviam no sul do país, onde tinham casa de alvenaria e até mesmo porão, perto de escola rural, em um local já desenvolvido.

 

O próprio casal e os filhos trataram de abrir espaço para o cultivo da agricultura e retirar as raízes do chão para que o solo pudesse aceitar o cultivo do grão. Maria Bagestão se lembra que a atividade era árdua, mas era necessária, pois aquela era a única forma de aproveitar todo o potencial do cerrado.

 

Além de ser uma agricultora batalhadora, Maria Bagestão é uma mãe que sempre quis o melhor para seus filhos, mesmo que isso lhe custasse ficar distante durante os dias de semana: para os filhos mais novos estudarem, o casal alugou uma casa na cidade, próxima à escola, para que os três filhos mais novos pudessem morar e estudar. Eles iam para a casa na cidade no domingo à noite e voltavam no sábado, enquanto outros filhos mais velhos ajudavam na lida da plantação.

 

Em 1992 a família recebeu uma triste notícia: o pai da família caiu do trator no meio da estrada e foi atropelado pelo mesmo. Arlindo até foi socorrido por quem passava pela estrada na hora, mas chegou ao hospital já com morte cerebral. Dona Maria estava na sede da fazenda quando recebeu a notícia. A agricultora, assim como os filhos, tentaram chegar ao hospital o mais rápido possível, mas não havia mais tempo, seu esposo faleceu pouco antes dela chegar.

 

Dona Maria ficou em choque com a notícia. Era seu esposo que cuidava de tudo na fazenda e também de toda a documentação até mesmo da produtora, que não tinha se quer seu CPF atualizado. Mas Maria Bagestão não podia parar, afinal, aquele era seu meio de vida e sustento da família, então ela seguiu em frente e assumiu o controle da Fazenda Portela, juntamente com o filho mais velho, João Décio.

João Décio estava trabalhando na Bahia quando a mãe e irmãos pediram sua ajuda para trabalhar na Fazenda Portela, em Jataí. Ele trabalhou por 16 anos e ajudou no desenvolvimento da fazenda, que se tornou cada vez mais produtiva e importante para a região de Jataí. Infelizmente, em outra fatalidade do destino, os Bagestão também perderam o agricultor, que foi vítima de um acidente fatal com uma colhedeira.

 

Em 2009 Maria Bagestão perdeu outro filho, Leonel. Apesar dessas dificuldades a agricultora teve que dar a volta por cima, superar suas dores e continuar com sua produção, dessa vez com a ajuda de outro filho, Luiz, que continua até hoje gerenciando a fazenda da mãe.

 

Mesmo com a ajuda dos filhos a agricultora não se ausenta da lida no campo: tudo o que é feito na produção de sua fazenda passa por autorização de Dona Maria, inclusive os seis colaboradores da propriedade – três filhos, o casal de caseiros e um motorista – são registrados com carteira assinada, tudo supervisionado pela produtora.

 

Hoje, depois de tanta luta, Dona Maria continua ativa mas está mais tranquila, dedica suas tardes à aconselhar e orientar os filhos nos trabalhos de sua propriedade e a praticar uma outra paixão: o crochê, que decora toda a casa da agricultora, mostrando que as mãos boas para o cultivo da agricultura – refletida em suas flores, plantas e pomar que cuida com carinho - também são delicadas para as linhas e agulhas.

 

A casa de Maria Bagestão, assim como sua memória, são cheias de lembranças de inesquecíveis momentos vividos e de reconhecimento – como as imagens aéreas que mostram o crescimento de sua propriedade e o título de Cidadã Jataíense, homenagem recebida pela Câmara de Jataí.

 

E assim, Maria Bagestão passa seus dias com a certeza de que cumpriu seu sonho e de seu esposo de desbravar o cerrado, conseguiu prestígio como uma das maiores produtoras da região, desenvolveu sua propriedade, criou bem seus filhos e que, apesar de todas as dores e dificuldades, sempre teve forças para continuar progredindo e se esforçando para realizar seus objetivos. Com certeza, uma mulher que é um admirável exemplo de vida de agricultor.

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